RUI ALMEIDA vence


Prémio de Poesia "Manuel Alegre"

É com muita satisfação que o anuncio, enviando um abraço ao poeta e ao amigo. Lábio cortado, original de poesia de Rui Almeida (o autor do blogue Poesia Distribuída na Rua), acaba de vencer a primeira edição do Prémio de Poesia "Manuel Alegre", instituído pela Câmara Municipal de Águeda. Entre outras personalidades, integraram o júri do concurso o poeta Nuno Júdice, a romancista Lídia Jorge e a ensaísta Clara Crabbé Rocha.

Do livro premiado - primeira obra deste escritor nascido em 1972 e residente em Queijas (Oeiras) - deixo aqui o poema inicial:


Suave, devastadora, a sombra deste tempo
De pernas dormentes por não caminharem.
Esta coisa de estar parado a assistir a nada,
Consciente da cor de cada objecto à minha frente
Enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro.

Não são crianças que oiço, nem pássaros,
São os pés de quem sabe andar e se desloca,
É o riso de quem reage à sedução e ao modo do desejo.
O peito está vazio e abandonei-o
– respirar é o acto de misericórdia permitido ao corpo.

Penso até à exaustão naquilo que podia ter sido.
Demasiado cedo me reconheci como vivente,
Como servo do movimento e das funções vitais.
Não renego a força que em mim surge
Nem me permito a queda na tentação da morte.

Os braços são pequenos demais para a coragem,
Isso que nem sei que seja ou de que me valha.
O roubo é uma solução como outra qualquer
Para viabilizar a vontade ou o impulso do gesto.
O risco é projectar a voz para além do mar;
Para além de tudo o que de imenso se estende
Diante de um homem que tem olhos perdidos.
Como se perde a distância? – é esta a pergunta
Sussurrada no momento em que se desiste
E da qual nasce a sede que permite a resposta.

É no candeeiro que extingo o excesso do pensamento;
Não reconheço à luz os efeitos salvíficos
A que a aparência poderia levar-me.
Prefiro o vazio sistemático da brancura
Diluído no ar que me envolve e que respiro.

Sem comentários: